Tinha tanta coisa para falar. Tanta coisa que queria que soubesse. Mas na hora que meus olhos encontraram os seus, tudo isso se dissolveu. E sei que meu olhar me entregou, sem que sequer uma palavra fosse pronunciada. E acabei por dizer mais do que teria revelado em palavras.
Por outro lado, sabia que a tua presença diante dos meus olhos também me dizia tantas coisas. Coisas que sei que você nem queria que eu soubesse. E jamais deixaria escapar entre teus lábios.
Mesmo o vendo caminhar em minha direção, o tempo pareceu parar naquele instante e um turbilhão de diferentes emoções tomaram conta de mim.
Tanto tempo havia se passado desde a ultima vez que havia me visitado e não fazia ideia das tantas vezes que tive vontade de retribuir a visita. E não sabia quantas vezes planejei um encontro casual. Quantas vezes disquei o seu número mas não liguei. Mas de alguma forma, naquele momento, eu sabia que tinha descoberto tudo isso.
A cada passo que se aproximava, eu sentia meus pensamentos despidos. Sentia meus sentimentos revelados.
E quando aquela pequena distância inicial havia se reduzido a centimétricos, eu o recebi com um singelo e inapropriado: - Boa tarde.
- Boa tarde. Como está?
- Bem. E você?
- Bem também.
Mas que droga! Eu tive vontade de gritar. Que diálogo ridículo era esse?
- Eu estava de passagem na cidade, e tinha que parar para abastecer, e resolvi passar aqui para saber como seus pais estão... - explicou após um longo silêncio.
- Ah! - Ah? Isso é tudo que eu tenho a dizer? Mas o posto de gasolina fica na entrada da cidade, bem distante da minha casa. Ver meus pais? Meus pais estão no trabalho uma hora dessas. Mas que idiota! Porque não diz que veio aqui para me ver?
- Melhor eu ir então...
- Tudo bem.
- Porque pode ficar tarde para eu seguir viagem...
- Verdade! - Sério isso? Se deu o trabalho de vir até aqui e já vai?
- Tchau...
- Tchau. Boa viagem...
- Obrigada.
E se afastou sem olhar para trás.
Apesar de toda a vontade de impedi-lo, de pedir que ficasse, nada disse. Apenas observei se afastar de mim. Senti-me atada pela mesmo nó que me impediu de dizer o que sentia, o que queria tanto dizer, ou que por muitas vezes me impediu de procurá-lo. E considerei mais uma vez que talvez ele estivesse atado por esse mesmo nó que o impedia de falar o que quer que seja que o levava vez ou outra de volta a mim...
E seguimos os dois arrependidos de tudo que dissemos em nossos silêncios, e principalmente do nada que foi dito por nossas palavras.

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